Medicina do Esporte

Metabologia do esporte: sistemas de energia, flexibilidade metabólica e o que a evidência sustenta

Como o corpo produz energia no exercício, por que o lactato é combustível e não vilão, e onde a otimização metabólica tem base e onde vira modismo.

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I

A conta de energia é paga por três sistemas

Fosfocreatina, glicólise e oxidação não competem entre si; revezam-se conforme a intensidade e a duração do esforço.

A moeda de energia da célula é o ATP, e o músculo estoca pouco: precisa ressintetizá-lo continuamente durante o exercício. Três sistemas fazem esse pagamento. O da fosfocreatina, ou ATP-PCr, é imediato, dura segundos e não depende de oxigênio; o glicolítico é rápido, usa glicose e glicogênio, sustenta esforços de segundos a poucos minutos e gera lactato; o oxidativo, mitocondrial, é mais lento, tem alta capacidade, queima gordura e carboidrato e sustenta o esforço prolongado (Egan e Zierath, 2013).

Os três operam ao mesmo tempo; o que muda é qual predomina. Um tiro de dez segundos é pago sobretudo pela fosfocreatina e pela glicólise; uma maratona, pela oxidação. É um contínuo regulado pela intensidade e pela duração, não um interruptor que liga um sistema e desliga outro.

O corpo treinado remodela essa maquinaria: mais mitocôndrias, maior densidade enzimática e mais capilares, o que desloca a mesma intensidade para uma via mais eficiente e sustentável (Hawley e cols., 2014).

Os três sistemas de energia
SistemaCombustívelDuração dominanteDepende de oxigênio
ATP-PCrFosfocreatinaSegundosNão
GlicolíticoGlicose e glicogênioSegundos a cerca de 2 minutosNão
OxidativoGordura e carboidratoMinutos a horasSim
II

Gordura ou carboidrato: o conceito de cruzamento

A intensidade decide a mistura de combustível, e existe um ponto em que o carboidrato ultrapassa a gordura.

Em intensidade baixa, a gordura domina o fornecimento de energia. Conforme a intensidade sobe, a mistura cruza e o carboidrato assume, um deslocamento previsível conhecido como conceito de cruzamento (Brooks e Mercier, 1994). O quociente respiratório acompanha essa troca.

Existe uma intensidade de oxidação máxima de gordura, o FatMax, em geral moderada, individual e treinável (Achten e Jeukendrup, 2003). É um conceito útil para o treino, mas não uma zona mágica de emagrecimento: para perder gordura, o balanço energético total e a aderência decidem mais do que a intensidade escolhida.

O atleta de endurance treinado oxida mais gordura numa mesma intensidade, poupando glicogênio. Isso é adaptação fisiológica ao treino, não efeito de suplemento.

Intensidade e mistura de combustível
IntensidadeCombustível predominanteMarcador
Leve (abaixo de cerca de 50% do VO2máx)GorduraQR baixo, faixa do FatMax
ModeradaMistura de gordura e carboidratoPonto de cruzamento
Alta (acima do limiar)CarboidratoLactato sanguíneo sobe
III

O lactato é combustível, não veneno

A ideia de ácido lático como causa da fadiga e da dor do dia seguinte está desatualizada; o lactato é substrato e sinal.

A imagem do ácido lático que envenena o músculo, causa a fadiga aguda e a dor muscular tardia é ultrapassada. O lactato é produzido o tempo todo, em repouso e no exercício, e funciona como combustível preferencial que circula entre fibras musculares, coração, cérebro e fígado, a chamada teoria do transporte de lactato (Brooks, 2018).

O lactato não é o vilão simples da acidose: é substrato para a produção de glicose no fígado pelo ciclo de Cori, é molécula de sinalização e é oxidado pelo coração e pelas fibras lentas. A elevação do lactato no sangue marca que a intensidade cruzou um limiar, não que houve envenenamento.

Na prática, os limiares de lactato são ferramentas de treino e de prescrição. Já os suplementos de lactato ou de cetonas exógenas vendidos como potenciadores de desempenho carecem de evidência robusta de desfecho e entram no território do modismo.

IV

Flexibilidade metabólica: trocar de combustível com eficiência

A saúde metabólica é a capacidade de alternar entre gordura e carboidrato conforme a demanda; a doença é a rigidez dessa troca.

Flexibilidade metabólica é a capacidade de trocar de substrato conforme a disponibilidade e a demanda: oxidar gordura no jejum e na baixa intensidade e mudar para carboidrato quando alimentado e na alta intensidade (Goodpaster e Sparks, 2017).

A rigidez metabólica, o oposto, acompanha a resistência à insulina, a obesidade e o diabetes tipo 2: o músculo perde a fluidez para trocar de combustível. O treino físico restaura essa flexibilidade, e é aqui que a metabologia do esporte encontra a medicina cardiometabólica do restante desta biblioteca.

A ressalva contra o modismo: flexibilidade metabólica é fisiologia real, mas dietas e suplementos que prometem destravar a queima de gordura exageram. Quem faz o trabalho é o treino e a qualidade da dieta, não o produto.

Metabolismo flexível versus rígido
SituaçãoFlexível (saudável ou treinado)Rígido (resistência à insulina)
Jejum ou baixa intensidadeOxida gordura com eficiênciaOxida menos gordura
Pós-refeição ou alta intensidadeTroca para carboidrato rapidamenteTroca lenta e incompleta
MarcadorQR responsivo à condiçãoQR pouco variável
V

Medir o motor: VO2máx, limiares e desempenho

O VO2máx e os limiares organizam o treino e, na clínica, o VO2máx é um sinal vital de risco.

O VO2máx, o consumo máximo de oxigênio, é o teto da potência aeróbia. Os limiares de lactato e ventilatório dividem os domínios de intensidade, e conceitos como o FatMax e a potência crítica orientam a prescrição do treino.

Além do esporte, a aptidão cardiorrespiratória, medida pelo VO2máx, é um dos preditores mais fortes de mortalidade, a ponto de a American Heart Association defender que ela seja tratada como um sinal vital na prática clínica (Ross e cols., 2016). Baixa aptidão rivaliza com fatores de risco clássicos.

Na prática, não é obrigatório um laboratório: testes de campo e dispositivos vestíveis aproximam esses marcadores. O ponto que importa é que o VO2máx é treinável e relevante para a saúde, não apenas para a competição.

Marcadores e o que dizem
MarcadorO que medeUso
VO2máxPotência aeróbia máximaTeto de desempenho e prognóstico de saúde
Limiar de lactatoIntensidade sustentávelPrescrição de zonas de treino
FatMaxPico de oxidação de gorduraTrabalho de base aeróbia
Potência crítica ou MLSSEstado estável máximo de lactatoRitmo de prova
VI

Abastecer o trabalho: periodização e modismo

Combustível para o trabalho exigido: nem sempre mais carboidrato, nem sempre menos, depende da sessão e do objetivo.

O princípio de abastecer para o trabalho exigido diz para ajustar o carboidrato à demanda da sessão, em vez de mantê-lo sempre alto ou sempre baixo (Impey e cols., 2018). Treinar com glicogênio baixo em algumas sessões pode amplificar o sinal adaptativo, mas compromete a qualidade da alta intensidade: periodiza-se, não se transforma em dogma.

A base é molecular: o exercício ativa vias como a AMPK e a PGC-1 alfa e dispara a biogênese mitocondrial, e a disponibilidade de nutrientes modula esse sinal (Egan e Zierath, 2013; Hawley e cols., 2014). Por isso o contexto decide.

Contra o modismo: a dieta cetogênica aumenta a oxidação de gordura, mas costuma prejudicar a alta intensidade e não é um upgrade universal; cetonas e lactato exógenos não têm evidência robusta de desempenho; e o cardio em jejum queima mais gordura no momento sem vencer o balanço energético total para emagrecer. Individualiza-se, e o total de treino e a aderência decidem.

Contexto de Prática

Por que isto importa para o seu cuidado

Para o atleta e para o paciente metabólico, o metabolismo do exercício é a ponte entre desempenho e saúde cardiometabólica: treinar a flexibilidade metabólica e o VO2máx melhora a prova e o prognóstico ao mesmo tempo. As decisões de combustível e intensidade devem ser individualizadas por um profissional; este texto é educativo e não substitui avaliação médica.

Referências

  1. Egan B, Zierath JR. Exercise metabolism and the molecular regulation of skeletal muscle adaptation. Cell Metabolism. 2013. doi:10.1016/j.cmet.2012.12.012
  2. Hawley JA, Hargreaves M, Joyner MJ, Zierath JR. Integrative biology of exercise. Cell. 2014. doi:10.1016/j.cell.2014.11.029
  3. Brooks GA. The science and translation of lactate shuttle theory. Cell Metabolism. 2018. doi:10.1016/j.cmet.2018.03.008
  4. Goodpaster BH, Sparks LM. Metabolic flexibility in health and disease. Cell Metabolism. 2017. doi:10.1016/j.cmet.2017.04.015
  5. Brooks GA, Mercier J. Balance of carbohydrate and lipid utilization during exercise: the crossover concept. Journal of Applied Physiology. 1994. doi:10.1152/jappl.1994.76.6.2253
  6. Achten J, Jeukendrup AE. Maximal fat oxidation during exercise in trained men. International Journal of Sports Medicine. 2003. doi:10.1055/s-2003-43265
  7. Impey SG, Hearris MA, Hammond KM, et al. Fuel for the work required: a theoretical framework for carbohydrate periodization and the glycogen threshold hypothesis. Sports Medicine. 2018. doi:10.1007/s40279-018-0867-7
  8. Ross R, Blair SN, Arena R, et al. Importance of assessing cardiorespiratory fitness in clinical practice: a case for fitness as a clinical vital sign. Circulation. 2016. doi:10.1161/CIR.0000000000000461

Conteúdo de caráter educativo e científico. Não constitui diagnóstico, prescrição ou orientação clínica individual, e não substitui consulta médica. As decisões de conduta devem ser individualizadas por um médico.

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