Medicina do Esporte

Deficiência energética relativa no esporte (RED-S): quando treinar muito e comer pouco adoece

Consumir menos energia do que o treino gasta, de forma crônica, não melhora o desempenho. Quebra hormônio, osso, imunidade e cabeça, em mulheres e em homens.

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I

O que é RED-S e por que importa

A raiz é a baixa disponibilidade energética: energia insuficiente para as funções do corpo depois do gasto do exercício.

A sigla RED-S, do inglês para deficiência energética relativa no esporte, nomeia uma síndrome de prejuízos à saúde e ao desempenho causada pela baixa disponibilidade energética, ou seja, energia insuficiente em relação ao gasto do exercício. Foi formalizada pelo Comitê Olímpico Internacional e atualizada em 2018 (Mountjoy e cols., 2018).

A lógica é simples e contraintuitiva: comer menos do que o treino consome, de forma crônica, não deixa o atleta mais leve e mais rápido de maneira sustentável. O corpo corta funções consideradas não essenciais para economizar energia, e a saúde e o desempenho caem juntos.

Desde a atualização de 2018, mais de 170 novos estudos ampliaram o campo, incluindo o papel da baixa disponibilidade de carboidrato, a relação com a saúde mental e o impacto em atletas homens (Mountjoy e cols., 2023).

II

Da tríade da mulher atleta a uma síndrome de todos

O conceito nasceu da tríade da mulher atleta e cresceu para incluir homens, com queda de testosterona entre os sinais.

A RED-S é a evolução do conceito de tríade da mulher atleta, que ligava baixa disponibilidade energética, disfunção menstrual e baixa densidade óssea. A tríade continua válida, mas descreve apenas parte do quadro (Mountjoy e cols., 2018).

O modelo ampliado reconhece que os homens também adoecem com energia insuficiente, com queda de testosterona entre os marcadores, e que os prejuízos vão muito além do osso e da menstruação (Mountjoy e cols., 2018).

A consolidação de 2023 reforçou esse alargamento e trouxe a saúde mental para o centro, tanto como causa quanto como consequência da baixa disponibilidade energética (Mountjoy e cols., 2023).

III

Os sistemas que se quebram

A conta da economia de energia é paga por vários sistemas ao mesmo tempo: hormônio, osso, imunidade, humor e desempenho.

A baixa disponibilidade energética repercute em múltiplos sistemas ao mesmo tempo. Não é um sintoma isolado, mas um padrão que o clínico atento reconhece pela combinação (Mountjoy e cols., 2018).

No eixo hormonal, surgem disfunção menstrual e amenorreia na mulher e queda de testosterona no homem. No osso, reduz-se a densidade mineral, com mais fraturas por estresse. O metabolismo de repouso desacelera para poupar energia.

A conta segue pela imunidade rebaixada, pelo trato gastrointestinal, pelo sistema cardiovascular e pela esfera psicológica. E, ao contrário do que a pressa por resultado promete, o desempenho piora, com menos força, resistência e capacidade de treino (Mountjoy e cols., 2018).

Sistemas afetados pela baixa disponibilidade energética
SistemaSinal típico
HormonalAmenorreia na mulher, queda de testosterona no homem
ÓsseoBaixa densidade mineral e fraturas por estresse
MetabólicoMetabolismo de repouso reduzido
ImunológicoMais infecções e recuperação lenta
PsicológicoAlterações de humor e da relação com a comida
DesempenhoMenos força, resistência e capacidade de treino
IV

Saúde e desempenho: os modelos de 2023

A consolidação de 2023 separou exposição problemática de exposição adaptável e trouxe um modelo fisiológico.

A consolidação de 2023 atualizou os modelos conceituais de saúde e de desempenho e introduziu um modelo fisiológico novo, desenhado para representar a complexidade do problema (Mountjoy e cols., 2023).

A distinção central é entre exposição problemática e exposição adaptável à baixa disponibilidade energética. Nem toda redução momentânea vira doença; o que adoece é a exposição prolongada, combinada a fatores moduladores individuais (Mountjoy e cols., 2023).

Esses fatores individuais explicam por que dois atletas com a mesma dieta e o mesmo treino podem ter desfechos diferentes. A avaliação, portanto, é individual, não uma régua única.

V

Como se detecta: a ferramenta REDs CAT2

A avaliação de 2023 usa uma ferramenta clínica com estratificação de risco e recomendações de treino e de competição.

A consolidação de 2023 apresentou a segunda versão da ferramenta de avaliação clínica de REDs, que organiza o diagnóstico por gravidade acumulada e por estratificação de risco, com recomendações associadas de treino e de competição (Mountjoy e cols., 2023).

O documento também traçou diretrizes para uma avaliação de composição corporal segura e eficaz, justamente para ajudar a prevenir a RED-S, em vez de estimular medições que reforcem comportamentos de risco (Mountjoy e cols., 2023).

Na prática, o rastreio começa com atenção aos sinais: alteração menstrual, fraturas por estresse, queda de desempenho inexplicada, fadiga persistente e relação disfuncional com a comida. A confirmação é clínica e multidisciplinar.

VI

Prevenção e tratamento: comer o suficiente

O tratamento é restaurar a disponibilidade energética. Não existe atalho de desempenho por comer de menos.

A base do tratamento é aumentar a disponibilidade energética, com mais energia na dieta, menos gasto, ou os dois, sempre de forma orientada. A abordagem é multidisciplinar, com médico, nutricionista e, quando necessário, apoio psicológico (Mountjoy e cols., 2023).

A mensagem para o atleta e para quem treina pesado é direta: comer de menos de forma crônica não é estratégia de desempenho, é fator de doença. O resultado sustentável vem de energia suficiente para treinar, recuperar e viver.

Diante de sinais de RED-S, a conduta não é apertar mais a dieta, e sim procurar avaliação especializada. Este texto é educativo e não substitui a consulta com um profissional de saúde.

Contexto de Prática

Por que isto importa para o seu cuidado

A RED-S descreve o que acontece quando a energia disponível para o corpo, depois de descontado o gasto do treino, fica baixa demais por tempo prolongado. É um problema de saúde e de desempenho, reconhecido pelo Comitê Olímpico Internacional, que afeta atletas dos dois sexos. Este texto é educativo e não substitui avaliação médica.

Referências

  1. Mountjoy M, Sundgot-Borgen JK, Burke LM, et al. IOC consensus statement on relative energy deficiency in sport (RED-S): 2018 update. British Journal of Sports Medicine. 2018. doi:10.1136/bjsports-2018-099193
  2. Mountjoy M, Ackerman KE, Bailey DM, et al. 2023 International Olympic Committee's (IOC) consensus statement on Relative Energy Deficiency in Sport (REDs). British Journal of Sports Medicine. 2023. doi:10.1136/bjsports-2023-106994

Conteúdo de caráter educativo e científico. Não constitui diagnóstico, prescrição ou orientação clínica individual, e não substitui consulta médica. As decisões de conduta devem ser individualizadas por um médico.

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